Complexo de Gabriela  

Marcos e Pedro, gêmeos, nasceram em um favela, na periferia de Salvador. Pedro era apenas minutos mais novo que Marcos. Eram pobres e filhos de pais separados. Marcos, desde cedo achou que aquele era seu destino. Pedro nunca se conformou com aquilo e rejeitava a idéia de viver eternamente aquele tipo de vida que o meio lhe impunha.   Os dois foram para uma escola pública. Marcos sentava-se no fundo da sala, com alguns colegas mais "espertos". Pedro preferia as primeiras filas. Os dois gostavam de futebol, mas Pedro restringia as "peladas" ao recreio. Depois da aula, Marcos continuava no colégio, jogando bola. Pedro ia para a pequena biblioteca, fazer o dever de casa, já que não tinha luz elétrica em casa. Marcos achava que não adiantava tanto estudo. A favela era seu habitat, e seria assim para o resto da vida.   Aos 12 anos, Marcos e Pedro foram convidados para fazer parte de um grupo de artes e danças. Caso se saíssem bem, poderiam viajar com o grupo. Marcos recusou e zombou do irmão dizendo que "quem é que vai olhar para nós, numa favela. Nós nunca vamos sair daqui; ainda mais para dançar." Pedro ingressou no grupo. Marcos fez amizades com uns jovens adolescentes do local, deslumbrado com o fato deles andarem sempre com roupas legais e de relógios sempre novos.   Aos quinze anos, Marcos já fazia algum dinheiro trabalhando com esses jovens. Por mais que a mãe insistisse em saber de onde esse dinheiro vinha, Marcos esquivavasse. Pedro entregava leite e pão para uma padaria próxima da favela. Continuava estudando, mas em outra escola. Por conta de seu comportamento e performance no grupo de artes, foi apresentado pelo instrutor a uma pedagoga amiga que lhe conseguiu uma bolsa de estudos em um colégio de um bairro melhor. Nessa época, já tinha feito sua primeira viagem para fora do Estado, com o grupo. Marcos tinha largado a escola desde os treze, logo após conhecer os amigos, e dizia que Pedro tinha tido sorte de ter viajado para fora de Salvador.   Aos dezoito, Marcos já estava com um carro semi-novo. Pedro ainda andava de ônibus. O dia 3 de março de 1993 foi um dia especial para Pedro. Era o primeiro dia na faculdade de administração. Continuava trabalhando e ganhando pouco. Na época, como assistente de faturamento de uma empresa multinacional. Aproveitava o horário de almoço para assistir algumas fitas de vídeo da coleção da empresa. Tinha feito amizade com o gerente comercial. Pediu emprestado algumas fitas cassetes e livros de um curso de inglês à distância.   Naquela época, Marcos passou quase quinze dias fora de casa, deixando todos preocupados. Disse que teve que pagar "um dinheirão para uma porcaria de um advogado que lhe resolveu uma 'coisinhas' e, por isso, andava meio curto de grana". Não explicou em profundidade quando sua mãe pediu por mais detalhes.   Com um ano de trabalho, aos 20 anos, Pedro foi promovido ao setor de exportação. Seu inglês já era suficiente para ler as invoices e letter's of credit que chegavam do estrangeiro. Marcos estava com algumas dívidas e buscava solução para pagá-las.   Aos 23 anos, terminando a faculdade, Pedro recebeu uma proposta tentadora. Ajudar o antigo gerente comercial, naquela época Diretor de Mercado Internacional, a montar o escritório de Portugal. Hesitou em deixar a mãe só, no que foi repreendido pela mesma que disse que ele "não se preocupasse, porque o Marcos ficaria cuidando dela." Marcos foi até o aeroporto com a mãe deixá-lo. Muito choro.   Dois anos mais tarde, e depois de muitas cartas e telefonemas, Pedro veio fazer sua primeira visita à mãe, desde que tinha partido para Portugal. Voltava com um canudo de MBA. A mãe não entendeu bem o que era aquilo, mas chorou com a conquista do filho. Marcos não deu muita atenção. Pedro disse que aquilo era o passaporte dele para uma nova vida. Queria levar a mãe e o irmão com ele para a Europa. Estava planejando casar com uma espanhola, que conhecera na universidade.   A surpresa maior Pedro deixou para depois. Tirou um livro da mala, com o título "Porque o Homem não é Produto do Meio: Uma antítese à Voltaire." Explicou que sua monografia de final de curso foi tão bem aceita que a universidade tinha decidido transformar em um livro. A mãe chorou novamente e aceitou a idéia de partir para a Europa. Marcos disse que tinha negócios ali, e não poderia ir.   Três anos depois, em Londres, para onde Pedro tinha se mudado com a mãe, a fim de abrir a filial inglesa da empresa, receberam um telegrama de um parente no Brasil, anunciando que Marcos tinha morrido numa ação de marginais na favela onde tinham nascido. Pedro soube, depois, que tinha sido uma queima de arquivo e que tinham achado no bolso de Marcos, um papel com a letra de uma música que ele ouvia desde criança, e que gostava muito. A letra dizia algo assim: "Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim, vou ser sempre assim, Gabriela..."  

Abraços, bençãos e SUCESSO!

 Paulo Angelim
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