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O amor cura?
João Soares Neto

Em uma cidade qualquer deste mundo morava um homem muito solitário. Até aí nada de novo ou surpreendente, pois em todas as cidades há pessoas, homens e mulheres, muito solitárias. Mas esse se imaginava muito mais  solitário, de verdade. E a sua solidão era tão forte que, ele próprio, ao olhar no seu rachado, manchado e quase opaco espelho, falava a si próprio: - como vai? E ele próprio respondia: vou só.

Não tinha amigos, colegas, conhecidos, adversários, confidentes, amores, ex-amores ou parentes. Morava só, no fim de uma rua esburacada, num casebre velho que nem chave tinha, bastava uma tramela por dentro e um pano que servia de calço ao sair pela única porta. Herdara de uma tia-avó que morrera tísica, o único parente que lhe restara, pois a mãe faleceu no seu parto e nunca conheceu o pai. Herdara era maneira de dizer, pois nem a tia, tampouco ele, tinha qualquer documento de propriedade.Também ninguém se importava com isso.

Era biscateiro. Pintava ruim, as torneiras consertadas logo voltavam a vazar, os pregos pregados saiam tortos, as paredes rebocadas nunca ficavam lisas e, um dia, ao se meter a eletricista, levou um choque, caiu da escada e daí levado a um hospital público com politraumatismo. Ficou em coma e ao acordar não se lembrava sequer do nome do hospital onde estava. Sabia ser grande, fracas luzes, cheirando a urina e a éter, ouvindo dia e noite choros, gemidos e gritos, e as pessoas de branco o tratando apenas como o prontuário 35 da enfermaria 07.

Engessaram braços, tronco e pernas. Enfaixaram a cabeça. Ninguém dizia seu nome, não falavam com ele. Apenas aplicavam injeções, faziam curativos, abriam sua boca e colocam pílulas com um pouco de água. Todo engessado criara escaras nas costas. Ele sabia que ia morrer, até porque a vida não o interessava mais.

            Gemia baixo até quando sentiu que uma auxiliar de enfermagem o tratava com muito carinho. Não sabia nada de amor, mas notou que ela ficava mais tempo que as outras ao lado dele.Limpava-o, penteava seu cabelo, brincava com ele, mas pouco se falavam.Os olhos eram os mensageiros.Ela aparecia pela manhã e ficava até o fim da tarde. Às vezes, pela madrugada. Tirava turnos de colegas, o cobria de atenções e sempre arranjava uma comidinha extra. Ele foi dando atenção à vida. Viu-se pedindo a Deus para ficar bom.

 Um ano depois, estava sarado, com pequenas seqüelas e uma carteira de aposentado na mão rendendo um salário mínimo mensal. Olhou para a auxiliar de enfermagem, a sua, ao sair do hospital e criou coragem para perguntar: quer morar comigo? Ela respondeu: não. Você é que vai morar comigo. E saiu protegendo o seu ainda lento andar. O dia estava claro e as nuvens brincavam nos céus.

 

         João Soares Neto é membro da Academia Fortalezense de Letras

Email: jsn@planos.com.br

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