MARKETING - Artigos de Colaboradores
Biodiversidade e
Marketing
Luis Sucupira
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Quando
caminhar pela mata veja a árvore. Para ver o tamanho da floresta
é necessário estar acima dela. Para entendê-la é necessário
conhecer sua biodiversidade. Biodiversidade
– Conjunto de espécies de animais e vegetais que vivem de
maneira autosustentada numa determinada região. Marketing
- Conjunto de estudos e medidas que provêem estrategicamente o
lançamento e a sustentação de um produto ou serviço no mercado
consumidor, garantindo o bom êxito comercial da iniciativa. Mas
o que tudo isso tem a ver com negócios? Vamos transportar para a
realidade dos mercados. As cidades cresceram e os vários perfis
de consumidores sofreram profundas alterações. Esta percepção
provocou a implementação da técnica do marketing de nichos.
Como tudo muda e a mudança é a base da evolução de todas as
coisas, surgiu o marketing um-pra-um ou one-to-one. Acontece que
isto também evoluiu para algo ainda sem nome, é algo como a soma
dos conceitos da biodiversidade e do marketing. Não é marketing
ecológico. Assim como nos nichos, o um-pra-um também privilegia
apenas o perfil do consumidor. Na
nova tendência há que se privilegiar o ambiente ou melhor, a
biodiversidade onde está situado o consumidor e como ele se
relaciona com os grupos à sua volta. O nicho trabalha com perfis
básicos. O one-to-one utiliza o mesmo conceito só que de maneira
muito mais estratificada, chegando bem perto da customização.
Ambos funcionam muito bem como aliados da prestação de serviço.
Imaginemos
como é na natureza. Há milhares de espécies no mundo, porém
muitas delas, só sobrevivem num pequeno espaço em áreas, que
por vezes, não ultrapassam alguns quilômetros quadrados. Nas
cidades não é diferente. Existem bairros, tais como os conhecidíssimos
Bexiga e Liberdade, em São Paulo, que têm perfil próprio e padrão
de consumo diversificado. As pessoas não estão lá por causa da
sua faixa de consumo, existem moradores ricos e pobres. Estas
pessoas estão juntas por uma raiz que pode ser religiosa,
cultural, pela raça ou nacionalidade, estado civil etc.
Encontramos florestas, digamos assim, povoadas de estudantes
universitários que adotam perfis e padrões de consumo
diferentes. Não quer dizer que por serem estudantes ou italianos,
eles sejam exatamente iguais. Nesta biodiversidade existirão vários
nichos. A técnica dos nichos trabalha a seleção dos iguais onde
quer que estejam, e o one-to-one trata da maximização deste
perfil básico. Acontece que eles consomem produtos comuns e estão
juntos por uma raiz que pode conter elementos de conveniência e
facilidade de acessos ou relacionamentos. Se privilegiarmos as
pessoas apenas pelas suas características, esqueceremos o
ambiente que os acolhe, suas características e a razão pela qual
coabitam. O nicho e o one-to-one trabalham com conceitos
individuais baseados em perfil, assim é possível agrupar pessoas
de mesmo hábito, de lugares diferentes, tendo como único fio
condutor o relacionamento existente entre estes mesmos grupos ou
nichos. Definido o perfil, o passo seguinte será localizar o
grupo. Depois é elaborada a estratégia de abordagem; testa-se e
executa-se. O resultado começa a parecer. Em seguida este mesmo
grupo passa a influenciar outro grupo, ainda por relacionamento, e
assim sucessivamente até que determinado produto seja massificado
em seu nicho. Diferentemente
disso, parece que alguns negócios só funcionam bem dentro das
suas biodiversidades. Padarias, mercearias, supermercados de
bairro, farmácias etc. As de maior sucesso buscam os elementos
comuns, a raiz, que provoca esta união. É a cultura do lugar que
determina a forma como o negócio deverá ser conduzido para ter
sucesso. Muitos empreendimentos bem sucedidos em um bairro, quando
vão para outro, não conseguem repetir o mesmo resultado e passam
a dar prejuízo. Existem supermercados populares que adotam
marcas, produtos e serviços específicos para aquela região ou
bairro. Existem lojas, principalmente as de home center que têm
na sua lista, produtos de uso quase que exclusivo daquela
microregião. Existem casos clássicos como o das padarias. Você
já deve ter visto várias lojas de roupas e até shoppings
centers inteiros dedicados a vestuário, mas não de padarias.
Postos de gasolina e outros tipos de loja podem conviver lado a
lado praticando a guerra de preços, mas padarias não. Geralmente
elas sobrevivem em espaços onde seu raio de ação não passa de
dois quilômetros, e geralmente estão situadas no caminho de
volta para casa. É interessante, mas tirando o leite fresco e o pão
quente, as padarias são bem diferentes umas das outras quando
falamos de outros itens. Essa seleção natural, no caso das
padarias tradicionais, é feita pelo próprio morador da região.
Há casos de produtos que estão atrelados às suas culturas. No
Sul a erva-mate utilizada no chimarrão é vendida em quase todos
os estabelecimentos comerciais. No Nordeste a rapadura e a farinha
são itens de fácil acesso e no Norte o açai. E mais
especificamente o Acarajé, pimenta e o azeite de dendê campeões
de consumo na Bahia. Alguns destes itens já estão massificados.
Mas isso não quer dizer que rapadura, erva-mate, azeite de dendê,
pimenta, acarajé e açai só sejam comercializados nos seus
estados de origem. Basta haver uma grande aglomeração de pessoas
de determinado grupo ou etnia em uma determinada região para que
lá exista existam alguns destes produtos. Em alguns lugares os
comerciantes colocam até baianas, que nunca foram a Bahia,
vestidas a caráter para vender o acarajé. Isso sem falar em
sushimens que não são japoneses. Por isso é muito importante
descobrir a raiz do lugar e isso só se consegue através de
pesquisa. Os
supermercados de bairro, estão resgatando antigas práticas.
Alguns estimulam grupos, e compram produtos feitos por moradores
do próprio bairro para comercializá-los para os demais clientes
da região. Até mesmo as gôndolas são arrumadas
estrategicamente de acordo com os hábitos e preferências do
consumidor daquela área. Uma farmácia descobriu que a sua
biodiversidade é basicamente composta de pessoas da terceira
idade. O empresário aproveitou a cultura do lugar e estimulou as
pessoas a contarem a história da sua vida. As duas melhores
ganhavam, gratuitamente, os remédios que compraram e necessitam
tomar, além de terem suas histórias publicadas no jornal da farmácia
direcionado ao publico da região. As 24 melhores histórias eram
formatadas em livro, e o livro lançado no bairro com a presença
de familiares e convidados. Não precisa dizer que esta receita não
teria a mesma repercussão num bairro de estudantes. O
que comprova a eficácia desta nova técnica é um caso que
aconteceu no Canadá. A Steinberg’s, é uma rede varejista, que
começou como uma minúscula loja de alimentos em Montreal. Em
1933, uma de suas lojas começou a fazer água. Sam Steinberg
avaliou a cultura do lugar. Descobriu que as pessoas gostavam de
comprar mais barato por comprar em maior volume, pois sabiam
exatamente o que queriam e como queriam. Sam apostou na raiz e se
deu bem. Fechou a loja na sexta, baixou seus preços entre 15% e
20% e converteu-a em auto-serviço. Mudou o nome de Steinberg’s
Service Stores para Wholesale Groceteteria (mercadinho de atacado)
e colocou folhetos nas caixas de correio da vizinhança. Abriu na
segunda. Resultado: as vendas cresceram e outras lojas da rede que
estavam em bairros com a mesma característica também mudaram,
mas nenhuma adotou nome diferente do utilizado tradicionalmente
pela rede. Podemos afirmar que houve uma adaptação à
biodiversidade ou ao ecomercado. Esta é uma das características
da técnica, do digamos assim, seria o biomarketing. Por
esta nova técnica (não quer dizer que as demais sejam
ineficientes – ela são excelentes e já provaram ter resultados
muito bons) seriam estudados os ambientes e assim seriam
elaborados produtos que resolveriam os problemas daquela região.
Em síntese, acontece uma pequena alteração do ditado acima.
Veja a árvore e as várias florestas que compõem a grande mata.
Para poder enxergar estes conjuntos de maneira separada é necessário
ver como todas as espécies convivem, e em que área vivem.
Explore a região onde está situado o seu negócio, pode ser mais
barato e ainda lhe trazer mais lucros. Conheça o ecomercado e a
biodiversidade da sua região, descubra a raiz . Lembre-se, Sam
Steinberg respeitou a raiz do lugar e arriscou a mudança – Ele
tinha razão. Não importa apenas o que você vende e como vende,
mas é fundamental analisar a biodiversidade do lugar onde o seu
negócio está inserido. Luís
Sucupira Gerente
de Marketing Microsol Tecnologia |
Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor