MARKETING - Artigos de Colaboradores
O Ser, o ter e o parecer
João Soares Neto
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Contardo
Calligaris é um psicanalista italiano que já morou no Brasil e
hoje vive entre os Estados Unidos, a Europa e o nosso país. Leitor
de almas e escritor sofisticado, comparece às quintas-feiras na
Folha de São Paulo. Na semana passada abordou a “crise do mercado
ou a crise do sujeito”, uma crônica-ensaio que me levou a
utilizar o finito espaço-tempo usado para devaneios em direção a
caminhos sem saber exatamente as saídas. Daí, por exemplo, ter
questionado três aspectos da vida: o ser, o ter e o parecer. O
ser é a base. É onde ficam o país, o estado, a cidade, o bairro,
a casa onde você nasceu, o tipo de família que lhe trouxe ao
mundo, com raça, origem e categoria social e formou a sua educação,
seja doméstica, formal pela escola, professores e colegas, informal
ou social e no que o espelho e a sua consciência revelam e se
aceita com ou sem questionamentos. O
ter é aquilo que se agregou a você, sejam bens materiais ou a
bagagem cultural, intelectual ou científica desenvolvida, a partir
dos valores que acredita positivos para a sua existência.O ter é o
que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu é,
sendo. O
problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas
pessoas querem parecer o que não são e o que não têm. É o mundo
da aparência, do supérfluo em que uma camisa ou um vestido, por
exemplo, é aceita não por sua qualidade intrínseca, mas por
ostentar uma marca de alta significação para a imagem de quem usa.
Um relógio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as
horas, mas pode definir uma posição social de quem,
diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para não
trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é
movediço. A
sociedade e, por mais que não queiramos estamos nela envolvidos,
cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que
os outros têm de nós, a partir de juízos de valor falsos ou
verdadeiros. É aquilo que pode ser fabricado com “marketing
pessoal”e o sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensa o
vazio de não poder ficar consigo mesmo e gostar disso. Algumas
pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas.
Essas pessoas, certamente, ficam à cata do que se chama de validação.A
validação é acreditar no que o outro diz para admitir-se ser
aquilo. Não pesa, para o validado, a referência própria, aquilo
que a sua essência profunda diz, mas o que lhe é soprado ou
gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito. |
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