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Existe problema sem solução?
Rodrigo M. G. de Oliveira

Caroço-de-Ata era o capataz pretinho franzino da fazenda Pau Pombo,de propriedade do doutor Cristiano, lá prás bandas de Carnaubinha. Nunca se soube ao certo o seu nome. Com certeza se não fosse Chico ou Zé, seria Francivaldo uma junção dos nomes herdados de pai e mãe. Todas as vezes se referia a si mesmo, orgulhosamente, como Caroço.

O pretinho era danado. Entendia, ou fingia entender, de tudo.

Discutia com o "doutor agrônimo", com o doutor dos bichos, ou com o engenheiro Gladstone construtor da barragem de "preda", sobre qualquer assunto: "instrume prá pranta", "nó-na-tripa dos boi" ou qualquer problema de engenharia na parede do açude grande. Não tinha qualquer problema que Caroço deixasse de apresentar uma solução de bate-pronto.

Mesmo nos feriadões, quando a casa sede da fazenda estava lotada de ilustres visitas, o pretinho não se dava por vencido. Discutia no alpendrão política com o Prefeito Jorge , teologia com o padre Paulo Roberto e ainda

apresentava solução para qualquer doença mencionada pelo médico Lourenço. Mesmo sem entender nada de voleibol dava conselhos para Fernanda, filha do doutor Cristiano, uma grande jogadora na capital: Saca assim..., corta assim...., pula desse jeito..., "broqueia".

- Cumigo num existe probrema ninhum sem solução. Dizia sempre o pretinho em tom sério e cheio de ciência.

Até a hidroponia, uma ciência importada de tecnologia nova introduzida na Pau Pombo, para o plantio de milho e sorgo, não deixou Caroço espantado. Mexeu até na quantidade milimétrica dos vários fertilizantes alegando que "as medida num tavam certo" .

Mesmo sendo homem de bons predicados era visível que todos queriam uma maneira de apresentar um problema insolúvel para desmascarar o pretinho.

Não me lembro quando, mas o doutor Cristiano, com todo a família, como de costume, viajou para o exterior, e, lá do extremo oriente, trouxe uma quebra-cabeça de 500 peças, que nem mesmo ele sabia do que se tratava pois era numa linguagem simbólica.

Mas a razão para a aquisição do brinquedo, todos sabiam. Era justamente para o safado do Caroço montar.

O boato correu durante vários dias nos botecos e na pracinha de Carnaubinha. Todos queriam ver o pretinho quebrar a cara e a cabeça.

Num feriadão foram todos à Pau Pombo tirar o escalpo do pobre do Caroço. Chegava até dar pena. Até o cultíssimo doutor Júlio Miranda, do cartório da localidade, estava presente. Mordia os lábios, talvez para um duelo do seu saber contra a astucia de Caroço.

O brinquedo após ser tirado da caixa foi entregue ao pobre capataz ainda dentro do saco, de "prástico", como ele dizia. Coçou a cabeça e pediu licença "pro mode" resolver em casa o "probrema", e saiu.

Todos ficaram a rir, entre goles de Uisque com Coca-Cola para os mais nobres e cachaça para os mais pobres. O tira-gosto também era farto, tripa de bode para os segundos e filé para os primeiros. A única coisa comum que os dois grupos compartilhavam era o gosto de ver Caroço falhar pela primeira vez.

Não demorou muito e todos avistaram a figura do negrinho vindo para o alpendre da casa grande.

  • Num disse que prá mim num existe "probrema ninhum, doutô"!
  • É impossível. Exclamou doutor Júlio. Vamos verificar! Complementou

Todos seguiram Caroço até sua pequena casa, por detrás do curral.

A peça estava montada sobre a pequena mesa torta para surpresa de todos. Muitos não sabiam sequer ao certo do que se tratava.

Segundo o cultíssimo dono do cartório tratava-se do retrato de um colorido santuário xintoísta japonês, impossível do pretinho montar. Tinha até, segundo o mesmo, símbolos em kanji, o sistema de ideogramas do Japão, a língua do demônio.

Realmente não dava para acreditar. Havia algo de astúcia em Caroço para a montagem da peça, já que não havia qualquer orientação para tanto. Não restava a menor dúvida. Uma satisfação coletiva foi exigida.

  • Tá certo "doutô. Vô contá" como "arresolvi o probrema"! Disse Caroço e continuou.
  • Realmente nunca vi a figura de frente! Mas a que tá por detrás todos "nóis daqui cunhece"! É a bandeira que está "atrepada na cumieira" da casa dos japonês da horta aqui vizinha da propriedade. É uma bola "vermeia" assentada num quadrado branco. E assim, só com duas cor foi "inté" fácil montar a bicha, e, depois, abastou virar ! "Inté criança ajunta"!. Finalizou o pretinho.

A partir de então, ninguém do local, diziam até mesmo da região, duvidava que existia "probrema", como dizia Caroço, que carecesse de solução.

" Não existe problemas sem solução. Depende apenas do ângulo que o encaramos " o autor.

 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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