| 7 de
fevereiro de 2001 'Artigo
1º: o cliente sempre tem razão;
Artigo 2º: na dúvida, aplique o artigo primeiro deste
regulamento.'
A inscrição está gravada na
entrada do supermercado Stew Leonard, de Connecticut, nos
Estados Unidos, a loja que mais ve nde por metro quadrado
no mundo por falar a verdade e encantar seus clientes com
produtos e serviços de qualidade. Nos bastidores de
algumas lojas de Nova York, há diversos
eletrodomésticos portáteis empilhados pelos cantos,
fruto da troca que fizeram pa ra alguns clientes. Tudo
bem, trocas são procedimentos normais do comércio, não
fosse o ramo de atividade deles. Eles não trabalham com
eletrodoméstico nenhum, mas levam muito a sério esse
negócio de que o cliente sempre tem razão, preferindo
aceitar peq uenas trocas a brigar com a freguesia: são
lojas de calçados finos, cujos preços chegam a US$ 300.
Analisando o comércio americano pelos exemplos acima,
poderemos deduzir que lá não acontecem falhas? Claro
que não. Existem supermercados, lojas de calça dos e
muitos outros setores onde há falta de mercadorias,
sortimentos fora do perfil dos consumidores e atendimento
inadequado. Mas há leis que protegem os consumidores e
funcionam.
Aqui, no Brasil, em que estágio está o relacionamento
do comércio em geral com seus clientes? Houve
considerável progresso nessa área, mas ainda temos
muito a aprender. Entretanto, os empresários não
aprendem por livre e espontânea vontade. No campo da
qualidade dos produtos e das relações com o mercado,
somente uma situaç ão de alto risco para provocar
mudanças positivas: a concorrência. Tratar bem é
agradar, enquanto atender bem é servir. Confundindo e
misturando as coisas, o nosso comércio pontifica mais na
simpatia, no paparico cheio de mesuras e promessas, do
que na efetiva prestação de serviços.
Feitas as comparações e deixando as mesuras de lado,
vamos ao ponto central da discussão que proponho.
Trata-se da arte de enganar e da mania de desvirtuar a
atividade principal de um negócio, especialidades em que
muitos varejistas se tornaram verdadeiros mestres
em nosso país. Basta visitar um grande supermercado com
olhos mais atentos. Você não encontra mais, com
regularidade, os produtos que sua família está
acostumada a comprar. Sabe por quê? Porque o mix de
produtos não foi definido respeitando as suas
preferências, os seus hábitos de consumo. Os produtos
foram expostos e dispostos na loja segundo a
rentabilidade que proporcionam para a empresa e dentro
das inúmeras verbas extras que os compradores arrancaram
dos f ornecedores, em troca de espaço e de promessas de
grandes vendas.
O foco principal saiu do cliente e foi para o caixa,
privilegiando as receitas não-operacionais e
desvirtuando a atividade básica do setor. Agindo
desenfreadamente, o supermercado deixa de servir os
clientes para se transformar num banco. Mas, na verdade,
não faz bem o trabalho nem de banco nem de loja, porque
camufla sua operação, colocando imensa estrutura para
trabalhar com uma única e exclusiva finalidade:
arrecadar dinheiro!
Os ' bancos de eletrodomésticos' não ficam atrás das
grandes redes de supermercados nesse jogo do parece mas
não é que já virou mania nacional.
Seus balconistas não vendem geladeira, fogão,
televisor, mas crédito, recebendo treinamento e
motivação para demove r o cliente da idéia de comprar
à vista. A função financeira dessas empresas,
potencializada por taxas anuais até 15 vezes superiores
à da inflação, é responsável por mais de 80% dos
lucros gerados no ano passado. 'Se não fossem as
receitas do crédito qu e concedemos aos clientes, nosso
negócio se inviabilizaria', confessou o presidente de
uma das cinco maiores redes do setor.
Moacir Moura
Consultor de varejo e especialista em treinamento.
E-mail:mmoura@b.com.br.
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