MARKETING - Artigos de Colaboradores

Participação nos lucros vence a qualidade de vida
Daniele Madureira - Gazeta Mercantil

São Paulo, 7 de fevereiro de 2001
Há uma dualidade entre os principais executivos quanto aos motivos capazes de retê-los na empresa, como mostra pesquisa com 4,5 mil profissionais da América do Norte, Europa, Ásia e Israel, pertencentes a 10 multinaci onais. O levantamento foi feito pela Korn Ferry International, uma das maiores recrutadoras mundiais de executivos e buscou analisar o que os profissionais consideram primordial no ambiente de trabalho para permanecer na empresa e quais os incentivos nec essários para obter deles o máximo de dedicação. Entre as principais conclusões, uma surpresa: enquanto todos alegam que qualidade de vida é o mais importante, na verdade é a participação nos lucros que os faz dar o
sangue pela companhia.

Tal contraste  é próprio do mundo corporativo neste início de século. 'A questão do equilíbrio entre vida pessoal e trabalho está se tornando crítica para a maior parte dos executivos', diz Robert Wong, presidente da Korn Ferry no Brasil. Pressionados constantemente p or resultados, os profissionais de hoje precisam ser mais competitivos e rápidos nas tomadas de decisão. 'Ao mesmo tempo, a atual geração se mostra mais interessada em desfrutar a vida do que os nossos pais', diz Wong. Mesmo porque, lembra, hoje é possív el enriquecer - ou atingir status na organização - bem mais depressa.

A pesquisa, realizada em parceria com a Marshall School of Business (EUA) e apresentada no Fórum Econômico de Davos, Suíça, contrapõe o que os executivos dizem ser importante num pla no de retenção com o que realmente os faz permanecer no emprego. As respostas foram divididas em três grupos por faixa etária - menos de 30 anos, entre 31 e 50 anos, 51 ou mais. A principal conclusão de todos os grupos é que equilibrar trabalho e vida pessoal vem em primeiro lugar. No entanto, para aqueles que têm menos de 30 anos e os que estão entre 31 e 50, o que os faz permanecer no emprego são as perspectivas de carreira.

Para os mais velhos, com mais de 50 anos, a recompensa pelo desempenho da o rganização - entendendo-se, por isso, participação nos lucros e ter opção de ações, as 'stock options' - é o que mais pesa. Este último fator também foi apresentado pelos três grupos como decisivo para que os executivos se comprometam a dar o máximo de s i num empreendimento, acreditando, assim, que o negócio também é deles.

Para profissionais de recursos humanos, o resultado da pesquisa não chega a ser uma surpresa. 'O equilíbrio entre vida pessoal e trabalho no topo da lista significa que esse é um d esafio ainda não resolvido pelas organizações', diz Priscila Soares, diretora de RH da Orbital, companhia voltada ao processamento de informações e transação comercial. 'O executivo tende a valorizar o que ainda não tem, mas a verdade é que a preocupação  com qualidade de vida ainda não fez com que nenhum profissional mudasse de emprego.'

De maneira geral, com base nas respostas, o levantamento da Korn Ferry apresenta conclusões para as empresas interessadas em reter seus talentos. Em primeiro lugar, o ferecer uma estratégia clara e convincente da companhia no mercado - e qual é o papel do profissional nessa estrutura. Também contam um ambiente inovador e com pouca burocracia; a nomeação para cargos desafiantes, que façam com que o profissional se dest aque na organização; além, é claro, da recompensa financeira baseada no desempenho da empresa. Ao contrário do que se poderia supor, a remuneração pelas metas individuais não afeta o comprometimento dos funcionários - com exceção do grupo com menos de 30  anos.

A pesquisa ainda chama a atenção para a questão das fusões e aquisições, quando elementos-chave podem deixar a companhia. Para evitar essa fuga, seria recomendável adquirir empresas em fase inicial, uma vez que é difícil integrar duas grandes or ganizações sob a mesma cultura. Outro conselho é avaliar e dar um novo impulso aos talentos da empresa adquirida, a fim de acelerar o sucesso da fusão.

Segundo Robert Wong, apesar da pesquisa não ter englobado América Latina, o comportamento dos execut ivos do Hemisfério Sul não apresenta diferenças em relação aos demais. 'Poderíamos dizer, apenas, que a preocupação com o bem-estar entre brasileiros é maior que a observada em norte-americanos, por exemplo', diz. O peso do salário na decisão de permanec er na empresa, é menor no caso dos brasileiros, segundo Wong. A diretora de RH da Hotelaria Accor, Vera Costa, faz a mesma avaliação. 'Ter sempre desafios profissionais e perspectivas de carreira são decisivos para a retenção', diz Vera. 'Não é só dinheiro no bolso que segura um executivo'.

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