MARKETING - Artigos de Colaboradores

Competitividade tira o sono dos executivos?
Daniele Madureira - Gazeta Mercantil

      São Paulo, 23 de janeiro de 2001 - O escritor Machado de Assis teria no atual ambiente corporativo um terreno fértil para aplicar a filosofia de vida 'Humanitas', idealizada pelo personagem Quincas Borba, descrita no clássico de mesmo nome. Para explicar a teoria, ele utiliza o exemplo de duas tribos famintas frente a uma plantação de batatas. Pela lei de 'Humanitas', uma deveria exterminar a outra a fim de conquistar o alimento, suficiente para saciar apenas um grupo. Apesar de drástica, é a única saída para garantir a sobrevivência. 'Ao vencedor, as batatas', proclama Quincas Borba. Com algumas diferenças, o mesmo está sendo apregoado em grandes companhias: só os melhores executivos permanecem - e levam gordos bônus.

      A competitividade que incendiou o mercado na última década, com o avanço da globalização, mostra a sua face mais dura dentro das próprias organizações. Pesquisa da Fundação Dom Cabral, realizada no último ano com um mil profissionais em todo o País, aponta que a competição entre os colegas, acompanhada da falta de confiança e de cooperação nas equipes, é o principal motivo da insatisfação de 66% dos entrevistados. Outros 17% se dizem indiferentes. Significa que 83% dos executivos brasileiros não encontram satisfação no próprio trabalho. E brigar por espaço com o colega é o que tem tirado o sono dos jovens profissionais, com até 40 anos de idade.

      'É como se, para que alguém ganhe, é preciso que alguém perca', diz Betania Tanure de Barros, diretora de parcerias empresariais e mercado da Fundação Dom Cabral, responsável pela pesquisa. Um outro levantamento organizado por ela em 2000, com 500 executivos brasileiros, revela que a maior preocupação entre os mais jovens está relacionada com a própria competência e a manutenção do emprego. Segundo Betania, há insegurança em relação à carreira, fazendo com que os profissionais sintam uma forte necessidade de aumentar o seu nível de empregabilidade, a fim de garantir o cargo.

      Dedicar-se até 14 horas ao trabalho, abrir mão da vida social e familiar, ilustra uma realidade comum a que se submetem os profissionais nas grandes empresas deste início de século. Em média, segundo a pesquisa, 71% do tempo do executivo é destinado à carreira, e 70% deles percebem que o cônjuge está insatisfeito com essa situação (outros 30% acreditam que o cônjuge seja indiferente - ou seja, todos têm consciência de que nenhum marido ou mulher está de acordo). Soma-se a isto uma sensação de urgência e de estar sempre devendo algo à companhia em que se trabalha.

      'Se penso que existe a possibilidade de não atingir as minhas metas, perco o sono', diz Urbano Nogueira Santiago Neto, gerente nacional de vendas da 3M do Brasil. Mas ele se apressa em dizer que gosta da competição saudável, em que as pessoas trabalhem em equipes, e não se tornem dois 'gladiadores na mesma arena'. 'Posso até trabalhar em um ambiente extremamente competitivo, mas sei que não vou me manter por muito tempo', diz Neto.

      'As empresas lançam mão de todos os meios para alcançar as suas metas, mas os profissionais não estão conseguindo responder com a mesma rapidez que passou a ser ditada pelo mercado', diz o consultor da Deloitte Touche Tohmatsu, Mozart Amaecing Langbech. Para ele, é a própria organização que tem levado os profissionais a um clima de insatisfação e pressão. 'A concorrência que estava do lado de fora passou para dentro da empresa', diz Langbech. 'Os executivos acabam sendo envolvidos pelo clima da instituição em que trabalham'.

      'Se eu disser que não existe conflito na empresa, é mentira', diz o diretor de aplicações e-business da Oracle, Ênio Klein, garantindo que a companhia tem feito progressos para equilibrar conflitos comuns entre duas áreas que têm, cada uma, suas prioridades. Na fabricante de softwares, por exemplo, a remuneração variável de Klein incide sobre todos os produtos que o executivo vender, e não apenas os aplicativos, sua responsabilidade. 'Aqui, a remuneração variável busca ser um apoio para a gestão'.

      Para minimizar a tensão gerada pela competitividade interna, empresas como a Orbital procuraram atrelar a remuneração variável ao trabalho em equipe, envolvendo todas as áreas da empresa - ou seja, para se atingir determinada meta, os diversos departamentos são obrigados a trabalhar em conjunto, e as metas individuais têm o menor peso na remuneração variável.

      Até agora, o esquema tem funcionado bem na novata Orbital, uma área de processamento de informação e transação comercial da Credicard que se tornou uma empresa em separado do grupo há dois anos. 'O nível de satisfação dos nossos funcionários saltou de 41% em 1999 para 72% em 2000', diz Priscila Soares, vice-presidente de recursos humanos da companhia.

      Mas não é só o ambiente competitivo que tira o sono dos executivos: especialmente entre aqueles acima de 40 anos, diretores e presidentes de companhias - 34,9% dos entrevistados - a maior preocupação é equilibrar a energia destinada à profissão e à família. Um imbróglio que as empresas ainda não conseguiram resolver: ao mesmo tempo em que todas tentam 'tirar o sangue' dos seus executivos, para fazer frente ao mercado competitivo, também investem em programas de qualidade de vida.

      Para o consultor Paulo Apsan, presidente da Arthur D. Little, ninguém consegue ficar por muito tempo em um ambiente desumano, em que alcançar metas da empresa supera interesses e o bem-estar da vida pessoal. 'Durante algum tempo, esse modelo se sustenta, mas não a médio e longo prazo, porque a saúde de cada profissional corre o risco de ficar seriamente comprometida', diz. 'A política do 'up or out' - ou cresça ou saia da empresa - adotadas por algumas companhias, costuma provocar efeitos colaterais, como doenças cardíacas.

      Nem todo mundo concorda com essa preocupação 'exagerada' com a competitividade. 'É hipócrita a empresa que tolera os incapazes', diz o headhunter Winston Pegler. 'É errado ser antiético, prejudicar colegas no ambiente de trabalho, mas a seleção natural é algo saudável, para as empresas e os próprios indivíduos', diz Pegler. 'Cada um procura se adequar às suas necessidades'.

      Para um consultor industrial, que enfrentou, há pouco tempo, um ambiente difícil e competitivo em uma fabricante de bens não-duráveis, a disputa faz parte do jogo - principalmente, quando estão expostos gordos bônus à frente. 'Todos querem ficar ricos', diz ele. 'Mas existe o desafio de participar de um projeto grandioso e o status que isso gera'.

      Paulo Apsan lembra, no entanto, que a possibilidade de acumular R$ 1 milhão ao ano pode ser tentadora e estimulante, mas passa. 'Quando as pessoas chegam lá, querem garantir qualidade de vida, algo mais que trabalhar 14 horas por dia'.

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