MARKETING - Artigos de Colaboradores
O Leigo e
os Especialistas
Vivaldo José
Breternitz (*)
O leigo sou eu. Leigo e todo dia surpreendido pelas barbaridades perpetradas pelos especialistas, que quase sempre não percebem aquilo que Nelson Rodrigues chamava de "o óbvio ululante". Gostando de um bom papo e de um bom chope, e trabalhando no centro velho de São Paulo há trinta anos, fiquei assombrado quando os especialistas em marketing da Brahma permitiram que o velho Bar Brahma, desde os anos 40 um marco da vida paulistana fincado na esquina das avenidas Ipiranga e São João, sempre presente na mídia, simplesmente mudasse seu nome para "677" ou coisa parecida, e passasse a servir chope de outra marca. Agora, dois ou três anos depois, fui agradavelmente surpreendido pela notícia de que o velho Brahma iria ressuscitar: suas instalações seriam restauradas, uma programação musical consistente seria implantada (haveria até uma "curadoria cultural" ), etc., etc. - tudo sob o comando de especialistas, gente que já tocava outros bares e que segundo a imprensa, "quer dar um presente a São Paulo", trazendo de volta a velha e querida casa, na linha de "repaginar o bar, realçar a arquitetura original mas destacar o serviço moderno atual". Animado, convidei minha filha, que apesar de seus 21 anos curte locais desse tipo, e fomos rever o Brahma. Sentamo-nos no bar, que não estava cheio, e depois de conseguirmos chamar a atenção dos garçons, por duas vezes pedimos dois chopes - simplesmente para irmos embora meia hora depois sem termos conseguido nenhum. Mais uma barbaridade dos especialistas: restauraram os móveis, definiram a programação musical e um novo cardápio, mas não conseguiram fazer o básico: implantar um serviço razoável - e num lugar desses, entenda-se por serviço razoável apenas não deixar que um cliente fique meia hora esperando por um chope sem ser atendido, e como já disse, numa situação em que a casa não estava lotada. Por isso tudo, vou deixar livre meu lado Mackenzista e continuar freqüentando a rua Maria Antonia. Pelo menos lá no velho Bar do Zé (oficialmente Bar e Lanches Faculdade) não existem especialistas, a cerveja é sempre rápida e gelada, o Midnight chama minha mulher de "Madame", o Arlindo me chama de "Professor" e pendura a conta quando eu e meu amigo Nicolau temos que sair correndo para ver o Corinthians jogar no Pacaembú... (*) Vivaldo José Breternitz (vjbreternitz@yahoo.com) é professor universitário e executivo de instituição financeira. |
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