Aprenda
com os Campeões de Audiência
Ao completar 50 anos de existência, a televisão
brasileira, considerada uma das melhores do mundo, repete
antigas fórmulas que ainda agradam a telespectadores de
todas as idades e, o que é melhor, podem nos ensinar
técnicas de comunicação.
Antes de torcer o nariz, como faz a maioria quando o
assunto é televisão, acompanhe o que temos a dizer
sobre alguns dos principais apresentadores e, depois, sem
preconceitos, tire suas próprias conclusões.
Cá entre nós, se esses apresentadores são vistos todos
os dias, ou todas as semanas, por milhões de pessoas nos
mais diferentes cantos do país, é porque devem possuir
qualidades excepcionais de comunicação, que os
diferenciam e os revestem de um brilho especial que vale
a pena ser analisado.
Vem cá, vem cá, vem cá. Que quer
dinheiro?????
Silvio Santos é o rei. São mais de 20 anos no
ar, todas as semanas, dando alegria aos
telespectadores e mantendo uma audiência
impressionante. E é exatamente essa alegria
constante do "homem sorriso" que o
mantém na telinha todas as semanas. Não é
fácil não.
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Numa época
em que tudo parece ser descartável e os ídolos são
substituídos num abrir e fechar de olhos, para
permanecer tanto tempo fazendo sucesso, precisa ser mesmo
muito bom.
Já no princípio ele elegeu seu público
Em comunicação, temos duas possibilidades para
conquistar os ouvintes: ou adaptamos nossa maneira de nos
comunicar ao tipo de público que pretendemos cativar ou
selecionamos a platéia conforme nossa própria
característica. Silvio Santos percebeu, no início da
carreira, que seu jeito simpático, divertido e
envolvente, aprimorado provavelmente quando ainda era um
camelô, atingia os telespectadores das classes mais
populares. Foi hábil em desenvolver um programa que
agradasse a essa camada da população e venceu.
O que podemos aprender com seu exemplo - Um dos
maiores erros que o comunicador pode cometer é o de
fazer apresentações sem considerar a característica de
seu público. Ao planejar o que pretende comunicar, é
preciso saber qual é o nível intelectual dos ouvintes,
o tipo de conhecimento que eles possuem sobre o assunto e
a sua faixa etária.
Se o nível intelectual for de médio para baixo, a
comunicação tem de ser simples e objetiva, as frases
devem ser elaboradas com palavras fáceis de entender, os
conceitos importantes precisam ser repetidos para
facilitar a compreensão. E, se depois de uma série de
argumentos, pedir para que as pessoas reflitam sobre
eles, você é quem deverá apresentar a conclusão,
pois, por causa da dificuldade de entendimento, elas
precisam ser orientadas no seu raciocínio.
Ao contrário, se o nível intelectual for elevado, você
poderá apresentar conceitos mais complexos e, no final
da linha de argumentação, pedir que reflitam sobre o
tema e deixar que cheguem à conclusão por sua própria
conta, porque, como são bem preparados, terão
condições e até prazer em procurar sozinhos a
resposta.
Se os ouvintes conhecerem bem o assunto, não trate do
tema de maneira superficial, pois, por conhecerem essas
informações mais elementares, poderão se
desinteressar. Se, entretanto, não estiverem
familiarizados com o assunto, não apresente as
informações com profundidade, pois, por não dominarem
o tema, terão dificuldade para compreender a mensagem.
Se os ouvintes forem jovens, fale do assunto ligando as
informações ao futuro, ao idealismo, aos planos de
realização, que são temas mais apropriados para essa
faixa etária. Se, por outro lado, forem idosos,
apresente os argumentos com provas mais consistentes,
porque, de maneira geral, pela maior experiência, são
pessoas mais desconfiadas e mais céticas. Procure
também associar as informações a assuntos do passado,
que normalmente interessam mais aos idosos.
Ô
Loco, Meu!
Acompanho a carreira de Fausto Silva desde a
época em que ele trabalhava nos programas de
esporte da rádio Excelsior (hoje CBN) de São
Paulo e depois na mesma emissora. Inicialmente ao
lado do maior narrador esportivo de todos os
tempos, Osmar Santos, em seguida com ele próprio
no comando. |
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Já nessa oportunidade, as pessoas perguntavam como
é que um apresentador com o carisma, a inteligência e a
presença de espírito do Fausto Silva não estava na
televisão.A oportunidade surgiu num programa que tinha
de tudo para não dar certo: "Perdidos na
noite", na Bandeirantes.
Com domínio total da platéia, quando me entrevistou
para falar sobre técnicas de comunicação, conseguiu
que cerca de 2 000 pessoas ficassem em silêncio o tempo
todo. E o resultado foi tão positivo que naquela semana
foi esgotada uma edição inteira de um dos meus livros.
Sem requintes técnicos, com baixo orçamento e mais ou
menos improvisado, o programa, em pouco tempo, emplacou,
graças à competência e à habilidade de Fausto Silva.
Algum tempo depois, foi, como Faustão, devido a seu
porte avantajado, para a Globo, onde mais uma vez brilhou
e encanta os telespectadores de todo o país até hoje.
Jamais abandonou sua presença de espírito
Quando Fausto Silva saiu da Bandeirantes e foi para a
Globo, diziam que ali perderia a liberdade para trabalhar
e fracassaria. Esse comentário já poderia ser
considerado um elogio para o apresentador, pois, se
diziam que o programa na Globo não daria certo porque
ele não poderia ser o mesmo, significava que, se seu
talento deixasse de ser explorado, a qualidade da
contratação seria desperdiçada.
Os prognósticos pessimistas foram por água abaixo, e
ele, como a maioria imaginava, foi sempre um grande
sucesso. Nunca abandonou sua irreverência e,
principalmente, sua presença de espírito, incomparável
na história da televisão brasileira.
O que podemos aprender com seu exemplo - Uma
apresentação deve ser planejada em seus menores
detalhes. Nada pode ser deixado ao acaso. Quanto mais
pudermos ensaiar o que vamos dizer, melhor. Entretanto,
nenhum preparo, por mais relevante que seja, poderá ser
considerado mais importante do que a presença de
espírito. Quando o orador consegue aproveitar uma
informação que nasce do ambiente e adaptá-la à
mensagem, está dando atualidade ao assunto e
demonstrando que sua fala é própria para aquela
platéia. Quintiliano diz, nas Instituições oratórias,
que o fato de o apresentador se valer de uma informação
que nasce ali, diante dos ouvintes, faz com que as
pessoas acreditem (apesar de sua mensagem ter sido
preparada em casa, com antecedência) que ela esta sendo
criada diante de todos, e elas aumentarão sua
admiração por ele.
Por isso, prepare sua apresentação de maneira
minuciosa, mas, ao chegar ao local onde deverá falar,
fique bem atento a todos os acontecimentos e, se observar
um que possa ser incluído na sua exposição, mesmo que
seja para substituir o que trouxe pronto, não hesite:
prefira a circunstância e use sua presença de
espírito. E, se não der certo, não se martirize,
brinque com seu deslize, vá em frente, mas não deixe de
arriscar.
Muito
obrigado pela presença, daqui a pouco a gente
volta
Jô Soares é o melhor entrevistador dos 50 anos
de existência da televisão no Brasil.
Participar como entrevistado de seu programa é
uma aspiração até de quem já conquistou muita
fama. |
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Falar em uma
entrevista com ele sobre o lançamento de um livro é
garantia de sucesso.A exemplo do que ocorreu comigo
quando fui entrevistado pelo Fausto Silva, também depois
de participar do programa do Jô Soares foi vendida uma
edição inteira de cada um dos livros que levei para
mostrar na entrevista.
Jô Soares sabe explorar todos os seus atributos de
comunicador - dança, canta, toca instrumentos, conta
piadas, narra "causos", entrevista pessoas
simples e famosas, em inglês, francês, espanhol, sempre
com a mesma naturalidade e desenvoltura. Entrevistas que
não apresentam atrativos e estão prontas para fracassar
são salvas por sua habilidade de bom comunicador. É
comum ele abandonar o roteiro de uma entrevista que
empacou e não anda para nenhum lado e passar a fazer
brincadeiras com o entrevistado, ou com os músicos do
seu sexteto, e terminar a conversa em altíssimo astral.
É vaidoso, mas não tem o mínimo constrangimento de se
chamar de gordo burro quando conta uma piada sem graça.
Não tem igual.
O que podemos aprender com seu exemplo - É comum
conversarmos com pessoas espirituosas, interessantes, que
sabem contar piadas, cantar, narrar histórias que
comovem ou fazem rir e que, quando precisam falar diante
de um grupo, parecem ficar embalsamadas, sem vida e sem
atrativos. Ninguém deve mudar seu jeito de ser só
porque está diante de uma platéia, ao contrário,
quanto mais natural, quanto mais espontâneo, quanto mais
puder ser ele mesmo, mais eficiente será sua
comunicação.
Por isso, se você tiver alguma habilidade que possa
projetá-lo de maneira positiva, não hesite em usá-la
em público.
Cante, recite poesias, dance, conte piadas, plante
bananeiras, enfim, faça o que souber de melhor e aumente
suas chances de sucesso. Jô Soares não teria o mesmo
brilho se limitasse sua atuação a perguntar e ouvir
respostas.
Aprenda
com os outros, eles não fazem sucesso á toa Ana
Maria Braga
Era totalmente desconhecida do público quando
apareceu com seu programa na Record. Encantou
desde o princípio e não parou mais de crescer. |
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Mudou-se
para a Globo e o sucesso foi ainda maior. Se analisarmos
quais são suas qualidades de comunicação, concluiremos
que ela é admirada, principalmente, porque sabe falar
como se estivesse conversando conosco, dentro da nossa
casa, circulando como mais um membro da família, só
que, no seu caso, sempre simpática, sem aborrecer
ninguém.
Depois que encontrou esse Louro José, que é uma das
personagens mais comunicativas e espirituosas da
televisão, ficou mais irresistível ainda.
João
Dória Júnior
João Dória pergunta ao entrevistado o que
gostaríamos de perguntar. Aproveita, como
ninguém, a própria resposta de seu convidado
para dar ritmo à entrevista. |
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Suas
intervenções ajudam o entrevistado a pensar e a
concatenar de maneira mais clara e lógica o raciocínio.
Se alguém, por qualquer motivo, por nervosismo, por
exemplo, se perder no meio de uma explicação, terá
sempre o seu auxílio, porque, do início ao fim da
entrevista, ele presta atenção em tudo o que o
entrevistado diz. Particularmente, sempre tive muito
prazer em ser entrevistado por ele, tanto no rádio como
na televisão. É uma conversa agradável o tempo todo.
Assistir a seu programa é um excelente exercício para
aprender como fazer perguntas apropriadas e como
desenvolver a habilidade de ouvir quando os outros estão
falando.
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Hebe
Camargo
É uma das poucas apresentadoras de televisão
que consegue dar atenção a muitas pessoas ao
mesmo tempo. Até os convidados mais tímidos,
mesmo participando em grupos numerosos, conseguem
falar e dar suas opiniões sobre assuntos que ela
aborda nas entrevistas, mesmo sobre os mais
polêmicos. |
Quando
deseja cortar a conversa de alguém, sempre age com
delicadeza e amabilidade. Já assisti a cenas em que ela
passou a elogiar uma convidada para poder interrompê-la
- que gracinha, que bonita você está com este vestido,
espero que volte sempre aqui para desfilar esta beleza
estonteante, tchau, linda. A entrevistada parou de falar,
foi embora do programa e não ficou chateada.
Se pudermos usar essa competência para tratar com muitas
pessoas ao mesmo tempo, também conquistaremos sucesso
como comunicadores, pois, seja em nossa casa, seja numa
reunião de negócios, conseguiremos deixar todas as
pessoas à vontade.
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Ratinho
Parece que quanto mais criticam a qualidade do
seu programa, mais sucesso ele faz. Na verdade,
ele sabe como divertir as pessoas e tocar a
emoção dos telespectadores com suas
brincadeiras. |
O público
sabe que toda aquela encenação é apenas um teatro, e
ele é um excelente ator.
Mas e aí? Onde entra o nosso aprendizado?
Às vezes, nas apresentações também precisamos viver o
papel de ator, para que nossa mensagem seja transmitida
com a expressividade desejada pelos ouvintes. Ou não é
assim que os bons advogados procuram convencer os
jurados, ou os grandes professores agem para envolver os
alunos? Não será preciso dizer que não devemos mentir,
mas, com essa interpretação, só estaremos pondo um
pouco mais de cores em nossa comunicação e, assim,
conseguimos tocar o sentimento dos ouvintes.
Silvia
Popovic
Ela não manda recado. Diz o que pensa e pergunta
o que deseja, independentemente de quem esteja
entrevistando. Recentemente, o ator David Cardoso
estava em seu programa se lamentando de uma causa
judicial que perdeu para a atriz Isabel Cristina |
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(Guy Loup),
por ter feito comentáriosdesrespeitosos sobre um
relacionamento amoroso que teriam tido no passado. Silvia
Popovic, sem ser agressiva, mas com a contundência que
sempre a caracterizou, foi direto na jugular do ator:
"Mas você não fez esse comentário desrespeitoso?
Fez ou não fez?". Sentindo a firmeza da pergunta,
respondeu: "Sim, fiz". Para que ela pudesse
complementar: "Então não tem o que reclamar. Ela
tem razão e você tem de pagar."
Se precisar, entretanto, sabe ser doce, meiga e
compreensiva. Quando estive em seu programa, os outros
participantes estavam se digladiando para impor seu ponto
de vista. Nesse clima de competição, preferi me afastar
e não me intrometer. No intervalo, ela me chamou para
conversar separadamente e perguntou por que não estava
participando. Quando eu disse que não tinha interesse em
ficar brigando para ter a palavra, disse-me para ficar
tranqüilo e fazer meus comentários à vontade, que
ninguém iria me interromper.
Assistindo a seu programa, podemos aprender que, em
situações mais agudas, em que precisamos enfrentar
opiniões contrárias muito fortes, é possível dar
diretamente nossas opiniões, sem parecermos agressivos.
ATENÇÃO - A partir de hoje, para que possamos
falar melhor e convencer os ouvintes com bons argumentos,
a tarefa de casa (literalmente) é essa: assistir aos
programas de televisão e aprender com quem já faz muito
sucesso quais são as melhores técnicas a ser
utilizadas.
Reinaldo Polito é professor de expressão verbal há 25
anos e autor de 9 livros, entre eles os best-sellers Como
falar corretamente e sem inibições - com 93 edições,
Gestos e postura para falar melhor- com 22 edições e
Assim é que se fala- com 18 edições. Suas obras
permaneceram mais de dois anos nas listas dos mais
vendidos.
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