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Desordem do Progresso
Valério Cela Menescal

Progresso, segundo a visão grega original há centenas de anos, era definido como "o aperfeiçoamento contínuo da cultura e do espírito". Ou seja, concentrava-se no crescimento do homem como espécie. Entretanto, a idéia foi aprisionada e modificada como um conceito específico da economia.

Nos últimos dois séculos, os economistas, principalmente os ocidentais, focaram o sentido de progresso no âmbito material. A definição, desta vez, é totalmente diferente: "é a constante elevação da eficiência produtiva e o aumento da oferta dos bens econômicos à disposição do conjunto da população", podendo ser medido pela taxa de crescimento do produto per capita.

Claramente vemos distorções entre os dois conceitos. O último, faz com que vários países sigam os idealizadores das regras econômicas do progresso, como se as mesmas fossem inerentes às culturas regionais e hierarquias históricas de dominação. Em muitas sociedades, os valores estéticos e a idéia de eficiência social passam a ser definidos conforme a contribuição que venham oferecer ao processo de crescimento do produto na economia.

Com a consolidação da economia como ciência, o avanço tecnológico e a necessidade de novos mercados aos países ricos (desenvolvidos), passou a existir uma grande distância entre os vários povos - às vezes dentro de uma mesma nação. Por mais que toda a era mercantilista separasse brutalmente os pobres dos ricos, nos dias atuais essa fenda cresceu e muito. Apesar da idéia vendida de globalização significar algo de positivo, de unidade do planeta, representando o final das fronteiras comerciais e o ataque à miséria, neste mesmo mundo os ricos, cada vez mais afortunados, estão preocupados em perder peso e
chegar aos 130 anos de idade, ao passo que os pobres, hoje miseráveis, têm uma única aflição: continuar vivos! São castigados física e moralmente, sendo capazes de matar - usando do instinto natural de sobrevivência - por um punhado de qualquer alimento que os mantenham com vida ou por impulso de revolta, ante a brutal distância e insensibilidade entre as classes.

Assim, a atual forma de progresso chegou a um ponto que desvendou toda sua incapacidade para seguir o ideal proposto. Na verdade, nem Marx tampouco Keynes estavam preocupados em atacar, simplesmente, o capitalismo progressista ocidental, mas alguns pequenos detalhes, como as distorções econômico-sociais e o auto-sufocamento do sistema capitalista, em face do acúmulo de riquezas e da concentração de renda cada vez mais crescentes, já em suas épocas. Um dos pontos fortes do marxismo são suas políticas, bastante discutidas no final dos anos 60, período de crise econômica e financeira no mundo, quando se debateram as formas e funções do Estado capitalista.

No caso específico do Brasil, existe um mal-estar social instalado a partir de seu descobrimento pelos europeus. Quem conhece bem a nossa História, sabe que o sistema de dominação, desde a época de Brasil Colônia, tem a marca da centralização, da coerção e do autoritarismo, sempre presentes nas relações sociais, econômicas e políticas. Consequentemente, o modo como se articulam os distintos interesses dos grupos e classes sociais passam a ser restritos e
tendenciosos. A política segue os mesmos passos de séculos atrás, não havendo, por grande parte dos políticos, real interesse em fazer com que o país se desenvolva e se desvincule da dependência única do capital internacional. Quem estuda a política brasileira dos primeiros séculos e lê os jornais de hoje, assusta-se com as semelhanças - negativas, na maioria.

O Estado capitalista continua sofrendo de uma crise sistêmica, a mesma da década de 60. As interferências do Estado na economia e as relações de trabalho estabelecidas têm gerado desemprego a um nível tal, que uma das grandes preocupações, hoje em dia, é saber como será o mundo sem empregos. Deste modo, voltamos à mística Grécia antiga e ao conceito de progresso, pensado no avanço contínuo do bem-estar do ser humano. O homem hoje reflete sobre o que tem sido feito nos últimos tempos e questiona seu destino, em nome do neo-progresso vivido nesses dias.

Valério Cela Menescal
Assessor de Diretoria da Durametal S/A

 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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