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Envelhecer trabalhando
Joaquim Maria Botelho

Entrevista concedida a Joaquim Maria Botelho

  "Como manter a mente sã, dentro da confusão moderna, e o corpo também são, dentro do barulho, da poluição e do nervosismo? A recomendação romana de mens sana in corpore sano como alternativa de vida com qualidade era possível porque os tempos eram outros e os problemas eram outros. Hoje, eu diria que, para viver muito e bem, a receita é envelhecer sorrindo. Pelo menos para mim esta é a receita."

  Assim se posicionou Achim Hermann Fuersthental, renomado psicólogo sueco radicado no Brasil há mais de 60 anos, quando perguntamos como é possível envelhecer trabalhando. Às vésperas de completar 88 anos, ele cumpre diariamente a rotina de passar uma tarde no escritório, desenvolvendo testes psicológicos. Segundo ele, o que faz na verdade não é um trabalho, mas um artesanato: "Tento prender tendências e capacidades humanas dentro de medidas quantificáveis, para ajudar os clientes. É como fazer profecia, prevendo o comportamento futuro das pessoas".

  Se a técnica de sorrir da vida funciona para todo o mundo ele não sabe. Mas funcionou para ele a vida inteira. "Desde criança as pessoas diziam que eu era diferente, porque eu sempre pensava primeiro, antes de agir. É um estilo que impediu que eu me desgastasse, um estilo socrático que não deixa a ação acontecer à toa."

  Nascido na Suécia, Fuersthental passou a juventude em Berlim, na Alemanha, onde começou o curso universitário. Aos 21 anos, em 1934, foi para a Universidade de Belgrado, na Iugoslávia, como assistente do seu professor de filosofia, com a tarefa de organizar a biblioteca alemã de filosofia. Completou os estudos em Basiléia, na Suíça, graduando-se em psicologia, com especialização em economia e filosofia. Seguiu depois para um instituto de educação na Itália, onde foi professor de latim, literatura universal, matemática e ginástica. Segue a linha de Alfred Adler, que considera que as pessoas desempenham autovalorização de acordo com o sistema que criaram durante a infância e a juventude.

  Com essa ampla experiência internacional, ele deve saber o que diz, quando considera que a forma perfeita de civilização ainda não existe. "Os países são primitivos em sua maioria, apesar de contarem com a tecnologia. Falta autocontrole das pessoas, e minha opinião é de que isso se deve ao fato de a civilização não estar bem estabelecida. O homem escapa à poluição, por exemplo, indo para o campo, mas não consegue escapar à pressão, e tampouco consegue se contentar com uma vida modesta. Todos querem possuir mais e mais, e isto desgasta. Ao mesmo tempo, a pessoa que vive sem coragem de sair às ruas por causa da ameaça da violência certamente acabará com uma velhice comprometida. O Brasil vive na cultura do medo, e isto é ruim. E como escapar disso, se figuras públicas se comportam como ladrões de rua?" Segundo Fuersthental, o único país que aprendeu a verdadeira civilização é a Suíça, mas a vida lá é muito monótona.

  TRABALHO E SATISFAÇÃO

    C&S – O senhor acha que o bom humor é responsável por uma velhice saudável?
    Fuersthental - Cem por cento sim. Mas é preciso ficar claro que bom humor não significa propriamente talento para o relacionamento. Voltaire, por exemplo, era um homem divertido, que produziu obras de grande senso de humor, mas era sarcástico, um misantropo, praticamente avesso à vida em grupo.

    C&S – E o que é preciso para envelhecer trabalhando?
    Fuersthental – Existem dois tipos de trabalho. Um é o trabalho obrigatório. Quando a pessoa se entrega a esse tipo de trabalho, seja ela o que for, vendedor, arquiteto, estará numa posição medíocre e trabalhará sem satisfação, porque será apenas um número. O outro tipo de trabalho é aquele que permite idéias e inspirações. O triunfo depende do trabalho em si, e a satisfação independe dos ganhos. Mas a proporção das pessoas inspiradas para as pessoas rotineiras é de uma para mil. Por isso tão pouca gente envelhece satisfeita no trabalho.

    C&S – Então, quem trabalha mal vive mal?
    Fuersthental – As pessoas que não tem satisfação no trabalho acabam procurando satisfação em outras coisas: no álcool ou no jogo, por exemplo. E não ficam bem com nada dessas coisas.

    C&S – E como conseguir satisfação no trabalho?
    Fuersthental – Investigue dentro de você. Descubra o que você gosta e o que você quer. Não tome nenhuma decisão que prejudique essas duas premissas. O resultado é automático: as pessoas mais felizes são aquelas que trabalham mais horas por dia e trabalham mais tempo na vida; em conseqüência acabam ganhando mais dinheiro.

    C&S – Sucesso financeiro é bom, não é?
    Fuersthental – É, mas é secundário. As pessoas deveriam ter como meta atingir um padrão confortável, apenas suficiente. Será que é preciso ter mais do que isto?

    C&S – O senhor tem algumas dicas para os nossos leitores?
    Fuersthental – Vou dizer o que deu certo para mim. Sempre tive uma base filosófica para a minha vida: decidi seguir uma postura contemplativa. Deixo as coisas acontecerem e interfiro pouco no seu curso, com toques pequenos, ajustes de relojoeiro. Eu sou um homem da dimensão pequena. Eu sou um homem que lida com o indivíduo. Tenho no meu amigo Thomas Case uma pessoa que é o meu oposto em termos de base filosófica de vida: ele gosta de lidar com as massas, pensar grande, viver em uma contínua conquista, ser o primeiro, ser o pioneiro. É uma questão de escolha. Deu certo para ele. Não daria certo para mim. Portanto é uma questão de escolha, mas ao mesmo tempo de encontrar a postura genuína. Você deve fazer o que sente que precisa fazer, e não adotar uma postura porque alguém a recomendou. Questione sempre, mesmo que seja a sua mãe ou a sua esposa a recomendar um caminho. Não imite, considere. De qualquer forma, descobrir a postura ideal é descobrir quem somos, de verdade.

    C&S – Não falta grandeza, nesta postura?
    Fuersthental – É uma regra que parece superficial, mas não é. Minha personalidade me leva a não fazer planos super-dimensionados para a minha capacidade de realização. Tenho os pés no chão. Não espero muito das pessoas, nem do destino. Sobrevivo, sempre com alguma elegância (e acho que quem se esforça demais perde a elegância). Eu não sou como um elefante, nem como uma locomotiva.

    C&S – Que animal, então, o senhor seria, se tivesse que escolher?
    Fuersthental – Acho que seria um lince. Ou melhor, seria um guepardo. É um gato ágil, mas não agressivo como os outros felinos selvagens. É sempre magro, porque não come mais do que precisa. E observo até um senso de humor, nesse animal. Além de ser elegante, para pular, para correr.

    C&S – A sua observação remete a pensar na natureza.
    Fuersthental – Respeito profundamente a natureza, porque nela não existe o sentido de destruição que impregna o homem. O que marca a natureza é a harmonia. A destruição ocorre, sim, mas como necessidade, e não como capricho. Matar um animal apenas para usar a sua pele como ornato é tão criminoso quanto matar uma pessoa. Esses princípios me ajudaram a viver em paz.

    C&S – Paz, então, é fundamental para envelhecer trabalhando?
    Fuersthental – Estudei filosofia. E filosofia não é conversa fiada. Aprendi com a leitura de Sócrates, por exemplo, a importância de fazer as perguntas certas, e não impor opiniões.

    C&S – Isto tem relação direta com a ética, não tem?
    Fuersthental – Ética é assumir um estilo de vida original, e não seguir o que é ditado pelos costumes, pelas convenções. Por exemplo, só deve ter filhos aquela pessoa que sabe que terá condições e sabedoria para educá-los. Não há sentido em ter filhos porque a sociedade exige que as pessoas casadas tenham filhos.

    C&S – O senhor concorda com Nelson Rodrigues, o teatrólogo e jornalista brasileiro que dizia que toda unanimidade é burra?
    Fuersthental – A opinião da maioria é sempre suspeita de ser burra. Eu sou um estóico: busco viver de tal forma que evito sofrer a irritação.

    C&S – O que mais é preciso ter?
    Fuersthental – Civilidade, que é uma vida de respeito ao próximo. Dignidade, que é conhecer o direito, a liberdade e a obrigação. E consciência de si mesmo, para entender o que é bom e o que não é bom.

    C&S – Para entender essas coisas é preciso ter boa educação, não?
    Fuersthental – Sem dúvida. Até porque a evolução pressupõe esses dilemas de educação: obedecer ou resistir, esforçar-se ou brincar. Resolvidos os dilemas, feitas as escolhas, a pessoa decide o destino. E tendo força de vontade e disciplina, segue a vida satisfeita. E envelhece, se trabalhar com satisfação, trabalhando.

Joaquim Maria Botelho
Grupo Catho

 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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