MARKETING - Artigos de Colaboradores

Crises previsíveis na carreira
Joaquim Maria Botelho

A carreira profissional tem começo, tem meio e tem fim. E como ela acaba depende, evidentemente, da estratégia adotada para o seu planejamento, quando ela começa, e dos cuidados que se tomam quando ela se está desenvolvendo.
Fomos buscar apoio nos trabalhos do Dr. Srully Blotnik, que dividiu a "vida útil" de uma carreira em décadas referentes à idade do profissional.

AOS VINTE ANOS, IDADE DO TEATRO
Segundo o Dr. Blotnik, as realizações educacionais e sócio-econômicas dos pais criam uma atmosfera que influencia na forma com que a criança e o jovem enxergam seu próprio futuro. Minimamente, desejarão partir do que os pais já conseguiram - não se contentarão nunca em ter menos do que os pais tiveram.
Poucos jovens pensam na personalidade como um instrumento para ampliar os horizontes profissionais. Começam a trabalhar como se não houvesse futuro, e só pensam no que estão fazendo agora, no dinheiro que estão ganhando neste mês, em como estão se sentindo no trabalho hoje. Algumas vezes essa visão imediatista ajuda a que cheguem onde querem, mas na maior parte das vezes leva a problemas, mais tarde.
A idade contemplada entre os 20 e os 30 se caracteriza por atitudes de imitação - o jovem está procurando modelos e consolidando personalidade. Acha que o mundo está aos seus pés e que tem um carisma fortíssimo. Num determinado momento vai questionar a si mesmo acerca do seu charme e da sua popularidade - funcionarão sempre? Normalmente essa pergunta aparece quando aparece a primeira crise profissional: ele se dá conta de que ainda não tem uma carreira. E pode passar a ver o emprego atual como uma verdadeira armadilha, uma prisão da qual não vê como escapar.
Seu processo mental costuma ser este:
- Preciso de mais dinheiro.
- Mereço mais dinheiro.
- Eles não querem me dar mais dinheiro.
- Então vou trabalhar menos.
- Ah! Agora mais ainda de dinheiro.
E, afinal, cansado de andar em círculos nesse pensamento egoísta, decide tomar a decisão pela carreira. É nesse momento que cresce, amadurece, profissionaliza-se, enxerga horizonte profissional, desenvolve potencialidades. E, como nem tudo são flores, rebela-se, combate o sistema, fica indeciso entre a escola e o trabalho. Mas cresce.

AOS TRINTA, DESTACANDO-SE DA MULTIDÃO,
Aos 30 anos, o profissional está usualmente mais maduro e independente. Toma consciência de suas reais qualidades e de seus reais defeitos. E passa a se ocupar em ser eficaz e em divulgar a sua eficácia, fazer o seu marketing pessoal. É o período em que o networking funciona melhor. Começa a ser notado, não pelas ansiedades de adolescente, mas pela seriedade das decisões e pela firmeza de opiniões. Aprende a confrontar-se mais calmamente com situações difíceis e, principalmente, muda de atitude: passa de trabalhador isolado e solitário para um trabalhador de equipe. Mas, como nem tudo são flores, adquire desconfianças - começa a achar que trabalhar em grupo é bom, mas que não se deve confiar em ninguém. É a época em que procura mudar de emprego, buscando um lugar que lhe dê espaço para toda a motivação que tem dentro de si. Mas, muitas vezes, muda de emprego mesmo é para encontrar um chefe melhor do que o que tem hoje. É a segunda grande crise.
Neste momento o profissional está enfrentando o que o Dr. Blotnik chama de "síndrome do cavaleiro branco". É o profissional que vai salvar a empresa para onde vai. Mantém ainda o ímpeto desenfreado e a ânsia de realizar. Está pronto para enfrentar a tudo e a todos.
Frases típicas dessa idade:
- Tenho que defender meu bom nome profissional.
- Sem mim, a empresa não é nada.
- Não gosto da direção que a empresa está tomando.
- Por que eles não conseguem ver que estão errando?
Vai demorar um pouquinho para perceber que deve reclamar menos e trabalhar mais, se quiser progredir.

AOS QUARENTA, O MEDO DA OBSOLESCÊNCIA
Aos 40, tornando-se indispensável para a empresa, o profissional costuma ter o máximo de rendimento. É neste período que começa a observar, à sua volta, os jovens de 20 e de 30, e começa a sentir um ligeiro temor de estar ficando obsoleto. Não é mais tão impetuoso e prefere esperar ser autorizado a enfrentar o risco de ousar. Desaparecem os clones - deixa de pensar que todo mundo é igual, e realiza o fato de que cada pessoa tem as suas características, qualidades e especialidades. Enxerga tanta coisa, percebe tanta coisa, que tende a ficar um pouco desorientado. A crise desta idade é geralmente a necessidade de reafirmação. Geralmente está numa posição de comando e sofre pressões dos subordinado e dos chefes - tudo o que quer é conseguir manter a ansiedade dentro de limites aceitáveis, para não explodir. Se não conseguir se estabilizar emocionalmente, estará indo direto ao encontro de problemas. Sabe que tem que acompanhar a nova tecnologia que surge a cada instante, mas tem medo de falhar e ser apanhado em plena falha. Quando decide, tem que se esforçar muito mais para conseguir os mesmos resultados que os mais jovens conseguem com facilidade.
Se souber lidar com o momento de instabilidade, recobrará o senso de direção e continuará a navegar em direção ao sucesso.

AOS CINQÜENTA, SEM HERDEIROS
Aos 50, o profissional está segudo, sabe manipular as pessoas - e principalmente o chefe - e está dividido em duas missões: pregar e ensinar. O pregador é um chato, o professor é soberbo (é o que as pessoas pensam normalmente), portanto o profissional maduro, cinqüentão, precisa esta muito atento para não ser uma pedra no sapato da equipe.
Começa a encarar a fria realidade de que a aposentadoria chegará num dia não tão distante, e que ele precisa se preparar para ela. É outra crise. Começa a perder horizonte, e se transforma em vítima. Principalmente porque não tem herdeiro para o seu lugar, a sua função, o seu projeto.
Em geral seleciona um companheiro de trabalho e o elege para ser o continuador de sua obra. Aí passa a ser o homem que não pode recusar nada: nem informação, nem convites, nem debates. É o homem dos sete instrumentos mas que ficou sem nenhum. Esquece de muita coisa, não se sabe se por amnésia ou modéstia.
Se não estiver centrado e focado, talvez nem perceba que é um profissional de sucesso, porque só enxerga, à sua frente, a linha de chegada da aposentadoria. Está entre os arrepios da vitória e a agonia da derrota.
Novamente ele mudará de emprego, e esta será crise final. Viverá bem aquele profissional que escolher como novo emprego, como aposentado, uma atividade produtiva para si mesmo e para os outros.

Joaquim Maria Botelho
Grupo Catho

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