MARKETING - Artigos
Marketing ganha campeonato?
(Economia e Mais, Janeiro de 2003)
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O
Fortaleza retornou à primeira divisão do futebol brasileiro. É
natural que surjam perguntas diante desse feito tricolor: qual a
responsabilidade do Marketing nesta façanha? Qual o peso da marca
Santana Têxtil para a conquista do Fortaleza? Se o Marketing foi o
responsável pela façanha, porque o mesmo não ocorreu ao Ceará que,
a exemplo do Fortaleza, também recebeu recursos de patrocinadores? Para
começar o jogo, deixe-me esclarecer umas coisinhas básicas sobre
Marketing. Marketing não é santo milagreiro, muito menos macumba (e
olhe que tem muito time de futebol que apela para isso). Marketing não
ressuscita produto ruim (leia-se time perna de pau, que não faz gol).
Dito isso, proponho que analisemos a questão do Marketing esportivo
por dois pontos de vista: o do patrocinador, e o do clube. A
função precípua do patrocinador esportivo é fornecer os recursos
necessários para a viabilização dos planos do clube. Se os planos
forem ruins ou mal geridos o Marketing não conseguirá fazer compensações.
Já a expectativa do patrocinador, quando investe em Marketing
esportivo, é basicamente a visibilidade da marca, e a conseqüente
fidelização de clientes antigos, bem como a conquista de novos. Ou
seja, patrocínio por mera paixão pelo time do coração é algo que
não faz parte das regras do bom jogo do Marketing esportivo. Isso
seria coisa de cartola. Quando
o investimento em Marketing esportivo é realizado em campeonatos
estaduais, o risco é grande. Alguns anos atrás, lembro-me das
declarações de torcedores corintianos que diziam se recusar a
comprar produtos Parmalat. A empresa, naquele instante, anunciava o
patrocínio ao Palmeiras, arqui-rival do Timão. É fato que existem
outros caminhos que eliminam esse risco, como: 1)
Investir em seleções ou atletas nacionais, como é o caso da
Nike, Guaraná Antártica ou Diadora (lógico que tremendamente mais
caro); 2)
Investir em transmissões esportivas, como Kaiser, Havaianas e
Itau; 3)
Ou patrocinar campeonatos inteiros, como é o caso do Banco do
Brasil com o vôlei de praia. Nesses casos, não existe partidarismo,
e conseqüentemente some o risco de antipatias à marca. É óbvio que
a ligação dos torcedores à marca também é reduzida, diminuindo a
probabilidade de vinculação do consumo da marca pela torcida do
clube patrocinado. Portanto,
do ponto de vista do patrocinador, as expectativas são bem claras:
retorno financeiro, leia-se, crescimento direto ou indireto nas
vendas. Já
do ponto de vista do clube, sua função é fazer por onde o dinheiro
investido seja devidamente valorizado, e isso significa conquistas,
vitórias, títulos. Olhando
para nosso quintal, vemos alguns aspectos que nos levam a crer que
Marketing NÃO ganha campeonato: a)
O Fortaleza perdeu o campeonato cearense de 2002, quando já
contava com o patrocínio da Santana Têxtil; b)
Com esse mesmo patrocínio, o Fortaleza se tornou vice-campeão
da segunda divisão do Brasileirão, voltando para a elite do futebol
brasileiro, em 2003; c)
O Ceará ganhou o campeonato cearense de 2002 e já contava com
o patrocínio do ICATU; d)
Com o mesmo patrocínio, o Ceará conseguiu apenas livrar-se de
um rebaixamento para a terceira divisão. Diante
disso, é natural, então, que façamos a pergunta: onde está a
diferença entre os dois clubes cearenses, no Marketing? A resposta é
simples: Não, ela está nos jogadores dentro de campo, e no técnico
e dirigentes fora dele. Esperar que o Marketing garanta vitórias
dentro de campo é como esperar que o Marketing mantenha um avião no
ar. A TAM inegavelmente tem o melhor Marketing da aviação comercial,
e nem por isso deixou de experimentar grandes apuros com suas
aeronaves. É válido ressaltar também que por conta de seu bom
Marketing, e da simpatia conquistada por seu falecido capitão (Com.
Rolim), boa parte de sua legião de fãs não saiu em revoada quando
das crises com os aviões. Nesse aspecto, o Marketing cumpre um papel
relevante para as empresas, quando transforma clientes em torcedores
fiéis. Imaginar
que o Marketing é necessário para manter torcedores fiéis a um
clube é pura perda de tempo. Num país como o nosso, onde o futebol
é religião oficial, virar de time (ou “casaca”) é quase uma
heresia, um pecado digno de excomunhão. Um clube de futebol não
precisa do Marketing para conquistar torcedores. O clube já os têm,
e os novos vêm por causa das novas conquistas. Pergunte agora quantos
torcedores do Palmeiras ou do Botafogo deixaram de torcer por seus
respectivos times, por causa de seu rebaixamento para a segunda divisão?
É possível que somente crianças tenham feito isso. Da mesma forma,
pergunte o que o Marketing poderá fazer por esses dois clubes: muito
pouco. Afinal a crise não é de marca, é de gol, de vitórias. Afinal,
para que serve o Marketing no esporte? Simples! Para capitalizar
melhor as conquistas alcançadas dentro de campo, nas pistas, em
quadras ou piscinas. É um ciclo. O Marketing arrecada mais pelo apelo
da marca do time ou do atleta, retorna mais dinheiro para a instituição
ou para a equipe do atleta, essa por sua vez investe em mais
equipamento, treinamento e contratações, ganha mais títulos, e
vende mais sua marca através de merchandising. Ou seja, o Marketing
pode ajudar sim. Mas sem um produto bom é impossível. Um
último exemplo: em 2002, o problema do Guga foi de Marketing ou de
performance? Até onde eu sei, suas campanhas publicitárias
continuaram no ar, os produtos com sua grife nas prateleiras, os
patrocínios em sua conta corrente, as meninas que lhe caçam nas
baladas e noites de Floripa, mas a maioria de suas bolinhas foram
devolvidas para fora da quadra. Aí estava o problema! E para esse
tipo de problema não tem Marketing esportivo que dê jeito! Paulo Angelim Consultor e palestrante nacional em Marketing, Vendas e Motivação Autor de "Por que eu não pensei nisso antes?" |
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