MARKETING - Artigos
Gente é Gente!
(Você S.A. - OnLine, Janeiro/2002)
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Pelo
amor de Deus! Parem com esta história de “Gestão de Recursos
Humanos”. Isso é tão antigo quanto o século passado. Nessa onda
de quebrar paradigmas – também não agüento mais esse bordão –
que tal se conseguíssemos sepultar esse resquício da dita administração
“moderna”! A justificativa para tal é muito simples: gente não
é recurso. Explico! De acordo com o dicionário do Aurélio, recurso
é um expediente, um meio para resolver um problema. A despeito dessa
definição, o mesmo Aurélio, como um espelho do cotidiano lingüístico
de uma sociedade, se vê obrigado a registrar que Recurso Humano é um
“Conjunto
de pessoas que trabalham numa empresa ou entidade”. Uma mera tradução
do dia-a-dia corporativo, sem a necessária reflexão sobre seu real
significado. Proponho-na a seguir. Ora,
as organizações competitivas, criativas e comprometidas com a
qualidade e satisfação de seus clientes já descobriram que não se
consegue esses predicados sem gente motivada, envolvida, satisfeita.
Sendo assim, nessas organizações gente passou a ser a fonte das soluções
ao invés de somente o meio para se chegar a elas. E se é assim,
gente satisfeita dentro da empresa então, passou também a ser um
fim, um alvo da gestão competitiva. Você pode estar se perguntando:
“isso tem alguma relevância, não e só uma questão de semântica?”.
A rotunda resposta, na minha opinião, é NÃO! Se fosse irrelevante,
por que teríamos abolido do “corporativês” os termos freguês
(cliente), subordinado (colaborador), departamento (células, times ou
equipes), chefe (líderes), reclamações (atendimento ao consumidor),
etc? É simples: tais termos não mais expressavam os novos conceitos
atribuídos para cada um dos personagens ou processos em questão. Da
mesma forma, considerar as pessoas da organização como recursos
(meios) abre caminho para que os superiores – digo, líderes – ignorem
a necessidade de construírem relações sadias, com vistas ao melhor
aproveitamento do potencial dos colaboradores. Recurso era cabível
quando pessoas eram vistas como mão-de-obra. Hoje, as empresas
precisam desesperadamente de mente-em-obra, em qualquer instância
hierárquica. Veja bem, pessoas não precisam e não devem ser
gerenciadas. Precisam, na verdade, ser lideradas, treinadas, educadas,
orientadas. Só assim elas produzem e contribuem mais. Você já se
viu alguma vez dizendo que precisa gerenciar melhor seus filhos. Lógico
que não. Quer dizer, lógico não, porque tem alguns workaholics
que não conseguem separar as coisas, e os coitados dos filhos
precisam apresentar memorando para cobrar a mesada. Mas, a
maioria dos mortais responsáveis sabe que sua responsabilidade como
pai ou mãe é de liderar seus filhos. Não que eu advogue a idéia
absurda que empresa é uma família, e que a relação entre líderes
e colaboradores deve ser matriarcal ou patriarcal. Mas, por que as
relações interpessoais em uma organização devem ser secas e sem
calor humano, no nefasto formato de gestão de recurso? Ao meu ver, é
inapropriada e nociva. A
outra inferência macabra que obtemos quando admitimos a gestão
do recurso humano é que pessoas são comparadas a dinheiro,
computador, móveis ou equipamentos. Apesar de alguns desumanos
quererem dar vida a esses recursos - “o dinheiro é quem manda!” -
todos eles são inanimados, sem sentimentos ou opinião própria. Ora,
gente não é assim. Por mais que alguns acreditem e professem a
tirania, gente não é massa de manobra, não é objeto, que se leva
de um lado para o outro, sem negociação, sem acordo. Gente se
frustra, se motiva, chora, rir, e por isso precisa ser tratada como
tal. Gente não é recurso. Infelizmente ainda preservamos uma certa mentalidade escravocrata. Quer uma prova?: "manda quem pode, obedece quem tem juízo!" Não tenho dúvida que tratar gente como recurso gerenciável é ainda um dos resquícios da escravidão que impera em boa parte do mundo corporativo, infestado de feitores e capatazes se passando por líderes. A solução não é só uma mudança cosmética de terminologias, como já temos visto por aí: “Gestão de gente”. Precisa sim, mudar o nome, mas acompanhado de uma mudança de princípios, de valores. Afinal, gente é gente! E nisso não cabe "recurso", nos dois sentidos. Paulo Angelim |
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