MERCADO IMOBILIÁRIO - Artigos

Remédio bom é o amargo?
(Jornal OPOVO, 31/7/98)

Há certos momentos na vida em precisamos fazer o necessário, e não o desejado. Estamos vivendo, no setor imobiliário, este momento. Um momento muito delicado, de transição, e que exigirá de construtores, corretores e clientes, muita sabedoria e determinação para enfrentá-lo. A dinâmica dos novos tempos nos empurra a mudanças drásticas no modo como vimos conduzindo nossos negócios. E sabemos que todo processo de mudança implica em reações, das mais diversas. Mas não podemos deixar de enfrentá-las por causa dos percalços de sua implantação, a despeito de não sobrevivermos ao momento. Vamos ao fato. Como já bem disse nosso presidente, João Carlos, criamos um monstro chamado autofinanciamento que, achávamos, iria resolver nossos problemas de mercado. Só que o feitiço virou contra o feiticeiro, e, hoje, este monstro é o principal inimigo do setor, pronto para devorar todo e qualquer resíduo de capital de giro ainda existente nas empresas. Pelo menos, é este o sentimento dos construtores. Ao longo destes últimos 4 anos de atividade, formamos, no mercado comprador, uma cultura insustentável, e não lastreada, de dinheiro fácil e barato. E, assim, como não é fácil tirar pirulito da boca de menino, está sendo debaixo de choro a reação dos clientes às primeiras iniciativas de mudança nos atuais parâmetros que regem os negócios. Embalados pela corrida consumista, sustentada por financiamentos miraculosos que os permitiram comprar veículos e eletroeletrônicos, os clientes, por sua vez, perderam a noção de prioridade, e, o que é pior, o hábito de poupar para comprar depois. Quantos clientes não temos visto com suas prestações de casa própria atrasadas, por conta de uma prestação alta do novo carro, ou do dinheiro que gastou na última viagem para Miami. Assim, a expectativa de muitos deles tem sido continuar praticando, no mercado imobiliário, as mesmas condições comerciais nocivas e asfixiantes de outros setores, que já levaram algumas empresas ao balão de oxigênio. Que fazer? A principal medida é parar de brincar de “banco imobiliário”, que é um joguinho bom para crianças e banqueiros já crescidos, mas extremamente cruel para os construtores civis adultos, que vivem no mundo real dos negócios. Isso sem sombra de dúvida é amargo, e difícil de engolir. Mas, como dizia minha avó, via de regra, remédio bom é o amargo. Que Deus nos abençoe. 

Paulo Angelim 
Consultor de Marketing

 
 Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor

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