MERCADO IMOBILIÁRIO - Artigos
SOCORRO! Quero um vizinho
(Jornal Diário do Nordeste, 03/09/2000)
| Ainda era
cedo. Pouco depois das 20h. Dirigia-me à Gama Filho
tranqüilamente para ministrar minha cadeira de Gestão
em Marketing. A mente vagava por idéias desconexas. De
repente, uma bola de futebol cruza meu caminho, em uma
das ruelas do Montese. Condicionado, reduzi a velocidade:
"Onde tem bola, tem menino atrás". Não deu
outra. Lá estava o garoto, olhar fixo na
"gorducha", como se, naquele instante, ela
fosse a única coisa importante no mundo. Talvez fosse.
Passado o susto, comecei a refletir sobre aquele modelo
de vizinhança. Pude então observar crianças brincando
nas calçadas. Uma turma de adolescentes em um banco de
praça. Alguns adultos conversando com a porta aberta. Um
outro, só de bermuda, saindo de uma casa, e entrando na
vizinha. Talvez para assistir o Jornal Nacional junto com
o amigo, ou com o familiar que mora ao lado; não sei. Concluí que a construção civil no Ceará, a exemplo dos grandes centros, evoluiu bastante em tecnologia, mas deu passos para trás no modelo de moradia. Não falo das fachadas, layouts internos, acabamentos, ou equipamentos de ponta, que avançaram. Refiro-me ao enfoque social da habitação, aos relacionamentos. Em síntese, continuamos construindo um modelo vertical de habitação que, em um mesmo lugar, junta as unidades e separa as pessoas. Moro, particularmente, em um condomínio vertical com 96 unidades. Uma população de quase 400 pessoas. Devo saber o nome de umas 6, no máximo. É ridículo. Quando lembro da rua onde morava, em Quixeramobim, no interior do estado, vejo que muito mudou. Tomávamos banho de chuva na rua, adultos e crianças, com os vizinhos. O carro do leite parava e forçava, naturalmente, a aglomeração dos vizinhos. Quem não lembra de um amigo de infância ou adolescência, conquistado na rua. "Menino, só quer saber de andar na rua", mamãe gritava. Que saudade! Em alguns casos, ainda existe hoje o "mãe, vou descer" ; e também a contrapartida: "Menino, só quer saber de viver lá embaixo". Mas não é a mesma coisa. A rua não acaba. Transforma-se em outras, em mato. O muro do condomínio tem um fim. Os megacondomínios da Barra no Rio, nas marginais em São Paulo, e os grandes condomínios horizontais em várias metrópoles brasileiras, quase mini-cidades, já são uma tentativa de recriar a atmosfera incomparável da vizinhança de bairro. É a busca de um modelo arquitetônico que permita o contato mais próximo, as atividades comuns - quantos condôminos você convidou da última vez que fez uma festa de aniversário em seu prédio? No caso de Fortaleza, é pior. O código urbano inviabiliza os grandes condomínios horizontais. Nossa sociedade entendeu que o chique é menos apartamentos por andar e menos ainda por condomínio. Do jeito que a coisa vai, é só esperar a hora de lançarem o primeiro "um por andar" de 70m2. Trocaria toda essa evolução por um vizinho parado à porta de minha casa, pedindo um alicate, ou um martelo emprestado. Ou meus filhos preparando as bandeirinhas para decorar a rua, no jogo da seleção, enquanto os pais reclamam do Luxemburgo. Coisas de vizinhos. Paulo Angelim |
Permitida a reprodução, desde que mencionado o autor